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Vozes dos Cânions - Emanuelle e a coragem de enxergar além da paisagem

  • 10 de jun.
  • 4 min de leitura

Antes de se tornar bióloga.


Antes dos projetos de conservação, das pesquisas e dos monitoramentos de fauna.


Emanuelle era uma menina do interior da Serra Gaúcha que colecionava reportagens sobre um lugar que ainda nem conhecia.


Tudo começou quando viu uma reportagem sobre o Cânion Itaimbezinho na televisão.


Ela não entendia exatamente o que eram aqueles paredões gigantes, mas sabia que estava fascinada.


No seu imaginário de criança que sonhava em ser bióloga, parecia impossível que algo tão grandioso existisse tão perto de casa.


Anos depois, os Cânions do Sul deixariam de ser apenas uma paisagem admirada à distância.


Passariam a fazer parte da sua própria história.



Quando a paixão encontra propósito

Em 2015, Emanuelle começou a trabalhar no monitoramento de mamíferos durante as obras de pavimentação da Serra do Faxinal.


Pela primeira vez, ela vivia aquilo que sonhou na infância.


Mas os cânions não despertaram apenas interesse profissional.


Despertaram inquietação.


Quanto mais conhecia o território, mais sentia que precisava fazer alguma coisa.


As mudanças de vegetação conforme a altitude aumenta.


A riqueza da fauna e da flora.


As formações geológicas.


As histórias das pessoas que vivem ali.


Tudo parecia reforçar a mesma certeza: aquele lugar merecia ser mais conhecido, compreendido e valorizado.


Foi dessa inquietação que nasceu o Projeto de Conservação Carnívoros dos Cânions.


Um projeto construído para aproximar pesquisa, educação ambiental e comunidade.


Porque para Emanuelle não basta produzir conhecimento.


É preciso compartilhá-lo.


projeto carnivoro dos canions


A emoção continua existindo

Quem imagina que a rotina de uma pesquisadora diminui o encantamento está enganado.


Quando perguntamos se ela ainda se emociona ao registrar um animal raro, a resposta veio sem hesitação.


Sim.


E muito.


Ela descreve a sensação como uma emoção tão forte que parece fazer o peito explodir.


Um misto de felicidade, admiração e gratidão pelo privilégio de testemunhar algo que poucas pessoas terão a oportunidade de ver.


Talvez seja justamente essa capacidade de continuar se encantando que a mantém seguindo em frente.


Porque a pesquisa começa na ciência.


Mas também nasce da paixão.



Estar presente

A maioria das pessoas visita os Cânions do Sul para admirar a paisagem.


E ela é realmente impressionante.


Mas os animais ensinaram a Emanuelle algo diferente.


Ensinaram presença.


A capacidade de ouvir, observar e sentir verdadeiramente o que está ao redor.


Ensinaram que não somos espectadores da natureza.


Somos parte dela.


E talvez essa seja uma das maiores lições que o território oferece para quem está disposto a olhar além dos mirantes.



A jaguatirica chamada Índio

Entre tantos momentos vividos em campo, existe um que permanece vivo na memória.


A captura de uma jaguatirica macho adulta, saudável e imponente, batizada de Índio.


Poder observar aquele animal de perto, compreender sua força e sua beleza, e ao mesmo tempo sentir a responsabilidade pelo seu monitoramento foi um daqueles momentos que dificilmente cabem em palavras.


Não foi apenas um registro.


Foi um encontro.


Emanuelle e indios

A conservação começa com as pessoas

Ao longo dos anos, os Cânions do Sul ensinaram muitas coisas a Emanuelle.


Paciência.


Coragem.


Persistência.


E a não desistir daquilo que faz o coração bater forte.


Mas talvez o maior aprendizado tenha sido outro.


Uma frase que ela repete com convicção:

A conservação não começa com os animais. Começa com as pessoas.

Porque preservar uma espécie, uma paisagem ou um território passa primeiro por criar conexão.


Por transformar conhecimento em pertencimento.


Por fazer com que as pessoas se sintam parte daquilo que desejam proteger.


Como ela mesma lembra:

Não é possível preservar aquilo que não se conhece.


Um coração que bate quase fora do peito

Quando perguntamos em que momento sua relação com os Cânions do Sul deixou de ser apenas um projeto de pesquisa, ela não conseguiu apontar uma data.


Não houve um instante exato.


Foi uma construção.


Uma soma de emoções, inquietações, sonhos e experiências.


Mas existe uma certeza.


É aqui que o coração dela bate quase fora do peito.



O futuro que inspira esperança

Depois de anos observando a biodiversidade da região, Emanuelle acredita que uma mudança importante já começou.


Ela vê novas gerações crescendo com mais respeito pela natureza.


Vê comunidades compreendendo o valor da conservação.


Vê diferentes setores da sociedade percebendo que preservar a biodiversidade não é apenas necessário.


É inteligente.


É possível.


E faz parte do futuro.


Talvez por isso continue acreditando que cada conversa, cada pesquisa, cada atividade de educação ambiental e cada sementinha plantada valem a pena.


Porque proteger a biodiversidade não é apenas cuidar dos animais.


É cuidar das possibilidades que deixaremos para as próximas gerações.


E para concluir, ela relembra uma célebre frase de Graciliano Ramos:

“Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões”



Vozes dos Cânions


Esta é mais uma história da série Vozes dos Cânions, um projeto da Canyons do Sul para registrar e valorizar as pessoas que ajudam a construir, interpretar, proteger e dar significado a este território.


Porque os Cânions do Sul não são feitos apenas de paisagens.


São feitos também por pessoas que dedicam a vida a enxergar aquilo que muitas vezes passa despercebido.

 
 
 

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