Vozes dos Cânions - Paula e a escola que começa antes da sala de aula
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Não tinha tela. A gente acordava brincando e ia dormir brincando.
Quando Paula fala da infância, ela não lembra de brinquedos.
Lembra de folhas.
De pedras.
Dos rios.
Das casinhas improvisadas embaixo das árvores.
Do cheiro do pão assado com chimia de goiaba depois de uma tarde inteira no rio.
Do vento chegando antes da chuva.
Do céu estrelado.
Dos morros que anunciavam o tempo.
Crescer em Praia Grande era aprender o mundo com o corpo inteiro.
Era sentir antes mesmo de entender.
Talvez tenha sido ali, muito antes da faculdade e da sala de aula, que nasceu a professora que ela é hoje.

Aprender a observar
Ainda criança, Paula tinha um hábito curioso.
Todas as noites olhava para o céu antes de dormir.
Queria saber se haveria estrelas.
Observava os morros para entender se a chuva estava chegando.
Gostava de sentir o vento anunciando uma tempestade.
Enquanto muitas crianças apenas brincavam na natureza, ela também aprendia a observá-la.
Sem perceber, estava desenvolvendo algo que levaria para toda a vida: a curiosidade.
E foi também na infância que surgiu outra inquietação.
Quando ouviu falar, pela primeira vez, sobre poluição, lixo e camada de ozônio na escola.
Ela lembra que ficou profundamente preocupada.
Como se, mesmo pequena, também fosse responsável por cuidar do mundo.
A escola que não cabia nela
Curiosamente, Paula nem sempre gostou da escola.
Ela conta que sentia como se aquele espaço fosse pequeno para tudo o que queria criar.
Foi somente durante a faculdade de Pedagogia que descobriu uma outra forma de enxergar a educação.
Encontrou nas ideias de Paulo Freire uma resposta para aquilo que sentia desde criança.
A escola também podia ser liberdade.
Podia despertar perguntas.
Podia formar pessoas.
Mais do que ensinar a ler e escrever, podia ajudar alguém a compreender o mundo.
Foi ali que percebeu que a Pedagogia não era apenas uma profissão.
Era uma missão.
Ensinar é criar pertencimento
Ao longo da carreira, Paula passou por diferentes áreas da educação.
Trabalhou com gestão, projetos, captação de recursos e secretaria de educação.
Mas foi na sala de aula que encontrou o lugar onde acredita que a transformação realmente acontece.
Ela costuma dizer que nenhum projeto substitui a relação entre professor e aluno.
É ali, no cotidiano, que uma criança descobre quem é.
E talvez também descubra o lugar onde vive.
Por isso, fazer as crianças conhecerem Praia Grande sempre fez parte da sua forma de ensinar.
Conhecer os rios.
Os cânions.
As histórias.
As pessoas.
A cultura.
Porque ela acredita que existe uma relação direta entre conhecimento e pertencimento.
Eu acredito que a gente só ama e só cuida aquilo que conhece.
Talvez essa frase explique muito mais do que a sua prática como professora.
Explique também a forma como ela enxerga os Cânions do Sul.
Educar também é cuidar
Quando perguntamos por que faz questão de trabalhar essas questões com as crianças, a resposta veio naturalmente.
Ela acredita que quem nasce aqui carrega uma responsabilidade.
A responsabilidade de cuidar do território onde vive.
Mas esse cuidado não começa quando a pessoa se torna adulta.
Começa ainda na infância.
Quando uma criança aprende a olhar para um rio.
Para uma árvore.
Para uma história.
Para uma comunidade.
E percebe que também faz parte dela.
Talvez por isso uma das frases de Paulo Freire a acompanhe há tantos anos:
A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. E as pessoas transformam o mundo.
Na sala de aula, Paula procura justamente isso.
Formar pessoas.
Pessoas que respeitem.
Que acolham.
Que convivam sem preconceitos.
Que entendam a diversidade.
Que tenham empatia.
Porque acredita que transformar uma criança é também transformar o futuro do território.
Nunca deixar de ser criança
Talvez o segredo da sua forma de ensinar esteja em uma decisão muito simples.
Ela nunca deixou a própria infância para trás.
Antes de preparar uma atividade, costuma fazer uma pergunta para si mesma:
Se eu fosse criança, eu gostaria de aprender assim?
Se a resposta for não, ela recomeça.
Porque continua acreditando que aprender passa pelos sentidos.
Pelo toque.
Pela curiosidade.
Pela descoberta.
Do mesmo jeito que ela aprendeu um dia.
Brincando entre rios, folhas, pedras e vento.

Sonhar também se ensina
No fim da conversa, perguntamos qual mensagem gostaria de deixar para as crianças que passam pela sua sala de aula.
Ela respondeu sem falar de notas, provas ou profissões.
Falou de sonhos.
Deseja que cada uma delas nunca deixe de acreditar que pode ser quem quiser.
Que tenha coragem de sonhar grande.
E que nunca esqueça que é capaz.
Talvez porque saiba que o futuro dos Cânions do Sul será construído justamente por essas crianças.
As mesmas que hoje aprendem o alfabeto.
Mas também aprendem a conhecer o lugar onde vivem.
E, quem conhece...
Aprende a amar.

Vozes dos Cânions
Esta é mais uma história da série Vozes dos Cânions, um projeto da Canyons do Sul para registrar e valorizar as pessoas que ajudam a construir a identidade deste território.
Porque antes de existir um guia, uma pesquisadora, uma empreendedora ou uma condutora, existiu uma criança.
E quase sempre existiu alguém que a ensinou a olhar para o lugar onde vivia com curiosidade, respeito e pertencimento.
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